quinta-feira, 8 de maio de 2014

Conto: Até o sol se pôr - Parte 1

        O sol batia na janela do seu quarto, fazendo a acordar com muito mau humor, ela levantou meio sonolenta e foi fecha-la, mas ainda assim seu quarto continuava claro.
           __Eu preciso de uma cortina mais grossa. – dizia enquanto caia na cama novamente, com o rosto no travesseiro.
Sentia-se estranha naquela manhã, seu estômago queimava por dentro, seus olhos estavam estranhamente incomodados com a claridade, ela sempre dormira com a cortina aberta, nunca se importou em acordar com os raios do sol.
Conseguia lembrar-se direito, mas sabia que tinha tido um sonho muito estranho à noite, com um vampiro.
A garota levantou o rosto e olhou para as mãos, estavam mais pálidas do que de costume, conseguia ver suas veias com extrema nitidez. E se não foi um sonho? Pensou.
Ela levou uma das mãos até a sua boca, foi sentindo os dentes até chegar aos caninos, muito afiados. Seus olhos se arregalaram por alguns segundos, ela sentou na cama e olhou para o chão, ao lado da porta estavam as roupas que ela usou na noite passada, cobertas com sangue seco.
__Não foi um sonho... - sussurrou para si mesma.
Seus lábios formaram um sorriso enorme, ela levantou e começou a pular na cama, nunca se sentira tão feliz, nunca se sentira tão livre.
A garota caiu deitada na cama, enquanto ria, ela olhou para a janela mais uma vez, seus olhos sensíveis ardiam. Mas, se foi verdade, porque eu não morri queimada pelo sol?
Alguém bateu na porta e ela foi desviada dos seus pensamentos.
__Rúbia, você vai ficar atrasada! Levanta logo! – disse uma voz abafada pela porta fechada.
__Já vou, mãe. – ela levantou da cama, olhou para janela mais uma vez, como se fosse encontrar a resposta por entre os raios do sol, abriu a porta e foi até o banheiro.

***

       Era uma noite fria de um sábado, em torno das 22 horas, um carro preto corria muito acima da velocidade permitida, o motorista drogado não conseguia manter os olhos na rua, mas pouco se importava, a brisa era boa demais.

Ela se encolhia de frio andando apressada pela rua. O semáforo fechou, a garota olhou para os dois lados e começou a andar pelas faixas brancas para a outra calçada, infelizmente, no mesmo momento em que um carro preto dobrava a esquina e vinha a toda velocidade em sua direção.
A menina entrou em pânico ouvindo o som do motor, das rodas contra o asfalto, paralisou no meio da rua enquanto via as luzes se aproximarem cada vez mais.
Uma cantada de pneus e um grito, nada mais.
Ela caiu ensanguentada, por um milagre, ainda consciente. O motorista estático segurava as mãos no volante e suava frio, segundos depois dava ré no carro e ia embora o mais rápido que podia, largando para trás um corpo ainda com vida.

O aroma saboroso do sangue vinha com o vento. Sangue ainda fresco. Sua boca começou a salivar, ele virou-se em direção ao cheiro e correu o mais rápido que pode, queria chegar rápido antes que esfriasse. Para os humanos era apenas um borrão, rápido demais para os olhos acompanharem. Um vulto negro. Um devorador de almas.
Observou ao longe o corpo contorcido no meio da rua, foi a ele com passos largos, o vento forte balançava seus cabelos longos e negros, sua língua comprida passava por entre os caninos afiados cedentes por sangue.
          Chegando ao corpo da garota ele abaixou e levou o rosto até o pescoço dela, permaneceu alguns segundos paralisado, sentindo o aroma e observando o sangue escorrendo lentamente, abriu boca lambendo o líquido vermelho.
__Por favor... Não me... Mate.
__E por que eu não deveria, criança? – sua voz era gélida.
__Eu... – ela tossiu cuspindo um pouco de sangue – sempre quis... Ser igual a você.
            Ele levantou a cabeça, fitando-a, ela sorria. A garota possuía um rosto de anjo, cabelos pretos, olhos castanhos, não tinha nenhuma característica marcante que a diferenciasse das outras mulheres, mas mesmo assim ela conseguia ser incrivelmente bela.
__Como disse?
__Eu quero... ser uma vamp... – o oxigênio lhe faltava, ela falava com grande dificuldade – vampira.
__A morte seria melhor do que isso, você não sabe o que está falando.
__Sei... sim.
__A vida de um vampiro não é tão boa quanto dizem nos livros, a realidade nunca é tão bela quanto à teoria. Eu posso te dar a vida eterna se você quiser, mas eu não vou te ajudar a sobreviver nela.
Ela balançou a cabeça levemente em sinal afirmativo. Ele suspirou.
__Você vai se arrepender, criança tola.
A garota sorriu ainda mais.
__Tal...vez.
Ela fechou os olhos enquanto ele cortava o pulso com uma das unhas e levava seu sangue até a boca da menina. Assim que as primeiras gotas de sangue do vampiro passaram pela sua garganta, ela sentiu um desejo enorme de continuar bebendo aquele líquido, cada vez mais, a garota apertou o pulso dele contra a sua boca e sugou tudo o que podia, até ele arrancar-lhe o braço e dizer:
__Chega.
Ela olhou-o com um sorriso bobo nos lábios e fitou seus olhos tristes pela última vez.
__Obrigada. Qual é o seu nome?
__Eu já não tenho nome.
Ele largou o corpo dela no chão e levantou, deu alguns passos e parou, olhou para trás pela última vez.
__Você fez isso por que quis, criança. Os humanos têm mania de inverter as histórias.
***

Rúbia saiu do banheiro já de uniforme, enxugando os cabelos longos numa toalha, continuava sem entender direito o que acontecia.
__Talvez eu precise sugar o sangue de alguém pra me tornar realmente uma vampira. – pensou em voz alta.
__Tá louca, garota? Você não é vampira.
Ela pulou de susto, mas logo se acalmou.
__Some daqui, Erich! – disse enquanto virava para trás.
__Para de gritar, sua chata! Vou contar tudo pra mãe!
__Vai! Tá fazendo o que aqui ainda?
O garoto mostrou a língua pra ela e saiu correndo para a cozinha.
__MÃÃEE... A Rúbia me bateu!
__Seu MENTIROSO! Volta aqui agora que você vai ver o que é apanhar! – e foi atrás do irmão.
__Parem de brigar vocês dois! – a mãe deles era uma mulher baixa de cabelos castanhos e curtos – Rúbia, você está mais do que atrasada, senta aí e toma seu café logo!
Ela sentou na cadeira não se sentindo muito bem, a cozinha era bastante iluminada e a luz do sol definitivamente deixava-a muito cansada.
A garota estava morrendo de fome pegou uma bolacha e uma xícara colocou duas colheres de achocolatado e leite, misturou e deu um grande gole, mas parecia que o leite não estava lhe fazendo bem, sentiu seu estômago revirando e um enjoo. Ela olhou a mesa farta de comida, mas nada ali despertava sua vontade de comer.
__Rúbia vai logo, você tá atrasada! – caçoou o seu irmão.
__Cala a boca, Erich! – respondeu.
__Mas eu não fiz nada, mãe, olha a... – ele continuou falando, mas a garota não conseguia prestar atenção, seus olhos estavam fixos na jugular dele, ela conseguia vê-la pulsar e pulsar. Sentiu sua boca salivando, imaginou como seria o gosto do sangue do garoto.
__RÚBIA! Olha para mim quando eu estiver falando com você!
A garota saiu do transe e olhou para a mãe com os olhos assustados. A mulher continuava a lhe dar um sermão, mas ela não se importava com aquilo, estava se sentindo um monstro por ter desejado o sangue do próprio irmão.
Rúbia levantou da cadeira e pegou a bolsa.
__Aonde você vai? Eu ainda não acabei de falar!
__Eu estou atrasada, depois você termina...
Ela abriu a porta da casa e saiu sem olhar para trás.

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